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    Vida em condomínio

    Senior living ganha destaque como nova classe de ativo imobiliário no país

    24 de outubro de 20267 Minutos
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    O rápido envelhecimento da população brasileira começa a redesenhar o mercado imobiliário. Empreendimentos de senior living, concebidos para reunir moradia, convivência, hospitalidade e diferentes níveis de cuidado, despertam o interesse de incorporadoras, investidores, empresas de saúde e operadores especializados.

    O movimento acompanha uma transformação demográfica significativa, marcada pela aceleração no envelhecimento da população brasileira. Dados são da pesquisa PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontam que a faixa de pessoas com 60 anos ou mais passou de 8,7%, em 2000, para 11,3% em 2012 e 16,6% dos habitantes, em 2025, o que corresponde a 35,2 milhões de brasileiros. Entre a população com 80 anos ou mais, o aumento foi de 1,8 milhão para 4,6 milhões, entre 2000 e 2025.

    Essa mudança no cenário destaca a necessidade de preparar as cidades e o mercado imobiliário para uma população progressivamente mais velha e começa a consolidar o senior living como uma nova classe de ativo imobiliário. Diferentemente de uma residência convencional, o empreendimento é planejado para preservar a autonomia dos moradores e, ao mesmo tempo, oferecer infraestrutura capaz de acompanhar eventuais mudanças em suas condições físicas e necessidades assistenciais.

    “Há uma demanda reprimida muito grande de pessoas idosas que vivem sozinhas, moram de forma inadequada ou dependem de uma estrutura caríssima de cuidadores”, afirma Caio Calfat, engenheiro civil com mais de 30 anos de experiência no mercado imobiliário e especialista na análise de viabilidade de senior living. “O mercado é imenso. Estamos falando de uma população que, até poucos anos atrás, não era atendida por produtos e serviços pensados especificamente para ela”, defende.

    Em termos de negócios, ele ressalta que o mercado brasileiro trabalha atualmente com três modelos principais de senior living. No primeiro, as unidades são vendidas diretamente às pessoas que irão morar no empreendimento. No segundo, os apartamentos são adquiridos por investidores e obrigatoriamente destinados à locação para o público do projeto. Já no terceiro, chamado de modelo patrimonial, uma empresa, fundo de investimento, fundo de pensão ou family office mantém a propriedade do ativo e obtém receita com sua locação.

    Cada formato apresenta características e desafios próprios. A venda direta aproxima o empreendimento de um condomínio residencial, mas exige cuidados para que sua finalidade seja preservada ao longo do tempo. O modelo de venda a investidores amplia as possibilidades de captação, embora envolva custos mais elevados de comercialização. No patrimonial, o controle permanece concentrado nas mãos do investidor institucional, que precisa dispor de maior capacidade financeira para desenvolver e manter o ativo.

    Ocupação reforça o potencial do segmento

    “Além de uma boa rentabilidade, existe a valorização patrimonial. Conforme o empreendimento fica mais conhecido e procurado, o próprio ativo tende a ganhar valor”, explica, citando o exemplo de um empreendimento em Porto Alegre (RS) que alcançou aproximadamente 95% de ocupação e vinha distribuindo aos investidores algo próximo de 1% ao mês. “O desempenho é específico daquele projeto e não representa garantia de retorno para outros ativos, mas sinaliza o potencial do segmento quando localização, demanda e operação estão alinhadas”, ressalva o especialista.

    Além da renda proveniente das locações, a valorização patrimonial pode ser favorecida pela consolidação do empreendimento e pelo aumento da procura. Em projetos com elevada ocupação, a existência de uma fila de espera pelo imóvel contribui para fortalecer o posicionamento do ativo.

    O investimento, contudo, exige estudos detalhados de oferta e demanda em cada cidade e região. A análise deve considerar concorrentes, preços praticados, vacância, perfil socioeconômico da região e demanda reprimida. Essa procura pode incluir pessoas idosas que vivem sozinhas, permanecem em imóveis inadequados ou dependem de uma estrutura familiar complexa para receber cuidados cotidianos.

    Um dos principais desafios está em preparar os empreendimentos não apenas para moradores independentes, mas também para aqueles que possam vir a desenvolver algum grau de dependência. Calfat defende que os projetos sejam dimensionados para três perfis: independente, semidependente e dependente.

    “Muitos empreendimentos miram o idoso independente e se esquecem de que essa pessoa pode se tornar dependente em um período relativamente curto”, diz. Ele afirma que a recomendação é prever aproximadamente 15% das unidades para moradores que demandam maior assistência. “O percentual funciona como referência operacional, mas deve ser adaptado às características de cada empreendimento”, explica.

    A infraestrutura também precisa acomodar pessoas com mobilidade reduzida. Elevadores, corredores, rampas, apartamentos e áreas comuns devem ser planejados para o uso de cadeiras de rodas e equipamentos de apoio. A acessibilidade, entretanto, não deve resultar em ambientes com aparência hospitalar. O desafio é combinar segurança, funcionalidade, conforto e qualidade estética, inclusive no mobiliário.

    O mesmo princípio vale para os serviços. Um morador autônomo pode passar a necessitar de assistência temporária ou permanente após uma doença ou acidente. Se o edifício não estiver preparado para essa transição, poderá deixar de atendê-lo justamente no momento de maior necessidade.

    Saúde, hotelaria e mercado imobiliário devem atuar juntos

    A operação dos empreendimentos coloca diferentes setores diante de uma nova oportunidade. Empresas de saúde possuem experiência em cuidados e serviços assistenciais. Redes hoteleiras dominam hospitalidade, alimentação e atendimento. Incorporadoras conhecem o desenvolvimento, a comercialização e a gestão dos ativos imobiliários.

    A tendência é que a consolidação do senior living dependa da integração de todas essas competências. Operadores hoteleiros interessados nesse mercado precisarão desenvolver ou integrar estruturas assistenciais, enquanto empresas de saúde terão de oferecer uma experiência residencial que preserve a autonomia e a individualidade dos moradores. Na opinião de Calfat, essas últimas saem na frente. “O serviço hospitalar é muito mais especializado que o hoteleiro. É mais fácil agregar hospitalidade a uma operação de saúde do que improvisar assistência em uma operação hoteleira”, pontua, citando experiências da Unimed do Rio Grande do Sul e outras empresas de do estado que já atuam tanto na operação quanto na incorporação de empreendimentos.

    Outro ponto essencial para o amadurecimento do mercado é a definição regulatória. A RDC nº 502 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária estabelece padrões mínimos para o funcionamento das Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI). A norma abrange instituições residenciais coletivas destinadas a pessoas com 60 anos ou mais, com ou sem suporte familiar.

    Nem todo empreendimento comercialmente apresentado como senior living, porém, possui necessariamente o mesmo enquadramento. A classificação depende das características da ocupação, dos serviços oferecidos e das normas sanitárias, urbanísticas e municipais aplicáveis. Por isso, cada projeto exige análise técnica e jurídica específica.

    O senior living também enfrenta uma barreira cultural. Durante décadas, moradias voltadas às pessoas idosas foram associadas quase exclusivamente a asilos ou casas de repouso. A expansão de empreendimentos concebidos para moradores autônomos, com serviços, convivência e possibilidade de cuidados progressivos, começa a alterar essa percepção. “O brasileiro começa a entender que senior living não é asilo porque esses novos empreendimentos estão tornando essa diferença visível”, defende Calfat.

    Além das grandes cidades, destinos com forte presença ou circulação de pessoas idosas podem receber novos projetos. Santos (SP), Gramado e Canela (RS), Águas de Lindoia (SP), Poços de Caldas (MG) e outros municípios da região das águas foram mencionados por Calfat como localidades cujas características justificam estudos de viabilidade. Em alguns casos, o empreendimento pode funcionar até mesmo como segunda moradia.

    O poder público também pode participar dessa expansão por meio de políticas urbanas e incentivos capazes de estimular projetos adequados às necessidades locais. Para isso, será necessário compreender a moradia sênior como parte do planejamento das cidades e não apenas como um produto imobiliário isolado.

    Mais do que uma oportunidade de investimento, o avanço do senior living revela uma mudança estrutural da sociedade brasileira. O valor desses ativos dependerá não somente da localização ou da qualidade construtiva, mas da capacidade de oferecer autonomia, segurança, convivência e cuidado ao longo do tempo. “Não estamos criando uma demanda. Estamos finalmente desenvolvendo um produto para uma população que já existe e precisa ser atendida”, finaliza Calfat.


    Luana Clara

    Jornalista e Head da Condo.news, professora de pós-graduação em Comunicação Estratégica e mentora em comunicação no StartupFarm
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