Durante muitos anos, o síndico foi visto apenas como um responsável administrativo do condomínio, alguém encarregado de organizar assembleias, acompanhar prestadores de serviço e lidar com demandas pontuais dos moradores. Hoje, esse cenário é diferente. O crescimento da verticalização nas cidades, o aumento da complexidade operacional dos empreendimentos e a própria valorização patrimonial dos imóveis fizeram com que essa função ganhasse um novo peso estratégico.
Não por acaso, a profissionalização da atividade avança rapidamente no Brasil. Segundo levantamento do Instituto Datafolha para o Grupo Superlógica, 46% dos síndicos já exercem a função de maneira profissional, vivendo exclusivamente dela, enquanto 72% buscaram cursos específicos de capacitação. O dado acompanha a relevância crescente do setor: mais de 80 milhões de pessoas vivem atualmente nos cerca de 520 mil condomínios existentes no país.
Esse movimento não impacta apenas a rotina dos condomínios. Ele também transforma a forma como construtoras e incorporadoras precisam enxergar o pós-obra e a gestão dos empreendimentos após a entrega das chaves. E, neste contexto, o síndico ocupa uma posição estratégica justamente porque é ele quem acompanha, no dia a dia, a evolução do empreendimento, necessidades de ajustes e manutenções ao longo do tempo. É, portanto, quem conduz ou influencia decisões ligadas à manutenção preventiva, organização das informações técnicas do empreendimento, comunicação com moradores e acionamento de garantias quando necessário.
Na prática, isso significa que a preservação do empreendimento passa diretamente pela qualidade dessa gestão e, portanto, construtoras precisam voltar o olhar para o relacionamento com o síndico durante todo o pós-obra, especialmente dentro dos prazos de garantias previstos pelas normas brasileiras.
Quando manutenções preventivas deixam de ser realizadas, pequenos problemas podem evoluir rapidamente para falhas estruturais, aumento de custos operacionais, desgaste da relação entre moradores e construtora e até judicializações. Por outro lado, quando existe acompanhamento técnico adequado, histórico organizado e acesso facilitado às informações do empreendimento, há mais previsibilidade, redução de manutenções corretivas e uma gestão patrimonial muito mais eficiente.
Construtoras e síndicos não podem ocupar lados opostos da operação, mas atuarem como agentes complementares dentro da jornada do empreendimento. Afinal, o pós-obra é uma extensão da experiência do cliente e um indicador importante da maturidade da construtora.
O desafio é que, historicamente, essa relação sempre foi marcada por processos descentralizados, excesso de informações dispersas e dificuldade de acesso a dados técnicos importantes. Muitas vezes, documentos ficam perdidos, históricos de manutenção não são registrados adequadamente e a comunicação entre condomínio e construtora acontece de forma pouco estruturada.
A tecnologia surge justamente como um elo para aproximar essas pontas e transformar a gestão do pós-obra em algo mais estratégico, transparente e rastreável. Plataformas digitais já permitem centralizar informações do empreendimento, registrar ações preventivas, acompanhar históricos de manutenção, facilitar o contato entre síndico e construtora e oferecer indicadores que ajudam na tomada de decisão.
Mais do que simplificar processos, isso contribui diretamente para a preservação do patrimônio no longo prazo.
Essa visão ganha ainda mais relevância diante do envelhecimento gradual do parque imobiliário brasileiro e da necessidade crescente de gestão preventiva das edificações. A própria Associação Brasileira de Normas Técnicas, por meio da NBR 5674, reforça a importância da manutenção contínua das edificações como forma de preservar desempenho, segurança e vida útil dos empreendimentos.
Construtoras que desejam se diferenciar nos próximos anos precisarão olhar para o pós-obra de maneira mais estratégica. E isso passa, necessariamente, por fortalecer a relação com os síndicos, oferecendo acesso facilitado às informações do empreendimento, maior integração operacional e ferramentas que contribuam para uma gestão mais eficiente e preventiva.
Porque preservar um empreendimento ao longo do tempo não depende apenas da qualidade da obra entregue, mas, principalmente, da capacidade de manter esse patrimônio bem gerido, bem acompanhado e preparado para o futuro.
*Por Adriana Bombassaro, diretora de operações da FastBuilt, construtech especializada em soluções para gestão do pós-obra e experiência do cliente
