A situação de emergência hídrica que permanece em vigor no Paraná trouxe um novo componente para a discussão sobre abastecimento: a necessidade de utilizar melhor a água disponível. Mais do que enfrentar um período de restrição, o desafio passa a incorporar soluções capazes de reduzir o consumo de água potável em atividades que não exigem esse padrão, especialmente em condomínios residenciais e comerciais.
O decreto estadual, publicado em abril com vigência de 180 dias, foi motivado pela redução da disponibilidade hídrica em diferentes regiões do Estado. Desde então, a Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) mantém o monitoramento dos sistemas de abastecimento e orienta a população para o uso consciente da água enquanto perdurar a situação de emergência.
A discussão acompanha um movimento mais amplo. A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) destaca que a segurança hídrica depende não apenas da disponibilidade de água, mas também da gestão eficiente desse recurso. Em âmbito global, a Organização das Nações Unidas (ONU) estima que cerca de 68% da população mundial viverá em áreas urbanas até 2050, cenário que aumenta a pressão sobre os sistemas de abastecimento e exige cidades mais preparadas para administrar seus recursos.
No Paraná, o tema ganha ainda mais relevância. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do IBGE, mostram que aproximadamente 1,3 milhão de pessoas vivem em apartamentos, distribuídas em cerca de 595 mil domicílios. Esses empreendimentos concentram centenas de moradores e utilizam diariamente água em atividades como irrigação de jardins, limpeza de áreas comuns, lavagem de pisos e descargas sanitárias.
Boa parte dessas aplicações não exige água potável. É justamente nesse contexto que tecnologias voltadas ao reaproveitamento da água passam a ocupar um espaço cada vez maior na gestão condominial, contribuindo para reduzir a demanda sobre os sistemas públicos de abastecimento.
Entre essas alternativas está o reuso de água cinza, sistema que capta e trata a água proveniente de chuveiros, lavatórios e máquinas de lavar roupas para reutilização em atividades como descargas sanitárias, irrigação de jardins, limpeza de áreas comuns e lavagem de pisos.
Na avaliação de Roberto Lopes, fundador da H2Eko, empresa especializada em soluções para reuso de água cinza, a emergência hídrica reforça uma mudança que tende a permanecer mesmo após o fim do decreto. “Durante muito tempo, a principal preocupação foi evitar desperdícios. Esse objetivo continua importante, mas hoje precisamos avançar para uma gestão mais inteligente da água. Água potável deve ser destinada aos usos que realmente exigem esse padrão. Nas demais aplicações, o reuso permite aproveitar um recurso que normalmente seria descartado”, ressalta.
Além de reduzir o consumo de água tratada, o sistema amplia o aproveitamento dos recursos hídricos disponíveis ao reinserir no ciclo uma água que seria descartada. Segundo Roberto Lopes, esse tipo de solução tende a ganhar espaço à medida que condomínios buscam reduzir custos operacionais e aumentar sua capacidade de enfrentar períodos de menor disponibilidade hídrica. “A água deixou de ser apenas um recurso operacional e passou a ocupar um lugar estratégico na administração dos empreendimentos. Investir em soluções que ampliem a eficiência do consumo significa preparar condomínios para um cenário em que esse recurso exigirá cada vez mais planejamento”, afirma.
A adoção de tecnologias voltadas à gestão da água acompanha um movimento já observado em outras áreas dos empreendimentos. Nos últimos anos, soluções relacionadas à eficiência energética, geração de energia solar, automação predial e monitoramento inteligente passaram a integrar a rotina de muitos condomínios. Para Roberto Lopes, a água deve seguir o mesmo caminho. “Os eventos climáticos extremos deixaram de ser situações isoladas. Independentemente da duração da emergência hídrica, a tendência é que a gestão eficiente da água passe a fazer parte das decisões permanentes de condomínios, empresas e gestores públicos. Quanto antes essa cultura for incorporada, maior será a capacidade de enfrentar períodos de escassez com segurança”, finaliza.
