Chico Felitti passou dois anos investigando o Condomínio Edifício JK, em Belo Horizonte. O resultado são dois podcasts: “O Síndico” e “A Síndica“, além de um documentário que chegou a milhões de pessoas. A história foi extraordinária demais para caber em um formato só.
Felitti é jornalista, podcaster e produtor. Cobre histórias da vida real com a profundidade de quem não abre mão de camadas. Mas quando começou a ouvir relatos sobre a síndica do Edifício JK, percebeu que estava diante de algo sem comparação.
“Essa história é, sem dúvida, a mais extraordinária com que eu já cruzei”, afirma. “E não só em condomínio. É a história mais extraordinária que eu já cobri na minha vida.”
Quando cada morador é uma reportagem
O que torna a história do JK tão notável é que ela não é uma, mas centenas. Felitti entrevistou muitas pessoas diferentes, sem relação entre si, e cada uma tinha um conto absurdo sobre a gestão condominial.
Havia quem tivesse ensinado o cachorro a andar de skate porque a síndica havia proibido o animal de pisar com as patas no chão do condomínio. Uma moça pagou o aluguel do mês em moedas depois que a síndica instituiu que só seria aceito dinheiro vivo. Moradores viviam sob ameaça de assédio judicial. Uma candidata a síndica recebeu 166 interpelações judiciais.
“Se cada história dessa já valia uma reportagem, imagina tanta junta”, diz Felitti. “É um baita podcast, um baita filme, um baita documentário, um baita livro.”
Conforme investigava, Felitti começou a notar padrões que transcendiam o condomínio. O abuso, a coerção, as suspeitas de corrupção. Tudo ecoava a política nacional.
Um espelho da vida pública
“Quando eu fui entendendo o sistema político e como essa pessoa ficou no poder tanto tempo, eu entendi que era um bom insight de Brasil”, reflete. “Tudo o que acontecia lá ecoava um pouco a política nacional.”
Daí emergiu um dado sociológico: a vida em condomínio, com seus conflitos sobre poder e recursos, replica mecanismos da democracia quando ela falha. O documentário alcançou audiência porque tocava em algo que transcendia o caso específico do JK. Era sobre como sistemas falham quando a fiscalização enfraquece.
Respeito pela categoria
Mas há uma ressalva importante que Felitti faz questão de destacar. Sua cobertura dos síndicos passa por histórias de enriquecimento ilícito e desvio de verba. Histórias que vendem, que escalam, que viram documentário. Não é, porém, a realidade da maior parte.
“Sei que tem essas histórias”, afirma. “Mas essa não é a realidade da maior parte dos síndicos e das síndicas brasileiras. São pessoas de bem, são pessoas dedicadas, são pessoas que trabalham muito.”
Filho de síndica e com muitos amigos na profissão, Felitti diz respeitar imensamente a categoria. “É um trabalho de gerenciar pessoas, e nada mais difícil do que gerenciar pessoas no ambiente que elas têm como mais caro, mais precioso para elas, que é a casa delas.”
Para colegas que cobrem condomínios, sua recomendação é clara: levar em conta que é um dos trabalhos mais subapreciados que existe. A imensa maioria não está envolvida em falcatrua. Os que estão rendem histórias extraordinárias. Mas eles são a exceção, não a regra.
“Então, para os síndicos e síndicas, todo meu respeito e tamo muito junto”, encerra.
