Quando se fala em infraestrutura urbana, além das ruas, calçadas, iluminação, drenagem, redes elétricas e saneamento básico, é fundamental incluir as árvores. Afinal, numa visão mais contemporânea de qualidade da vida e sustentabilidade, elas devem ser presença obrigatória do habitat humano, nas cidades, bairros planejados e condomínios, tanto pelos benefícios ambientais que proporcionam quanto pelos cuidados que exigem.
É preciso saber quais espécies existem, quantas são, onde estão, qual é seu porte, sua idade, seu estado de saúde e sua relação com calçadas, postes, esquinas e demais equipamentos
urbanos. É justamente para reunir essas informações e transformá-las em conhecimento para a tomada de decisões que o inventário arbóreo tornou-se uma prática muito importante.
Feito de modo correto, permite identificar áreas prioritárias para plantio, replantio ou remoção, orientar podas e tratamentos, prevenir conflitos com a infraestrutura e localizar árvores que possam oferecer riscos à população. Ao mesmo tempo, oferece uma visão mais ampla da cobertura vegetal, contribuindo para a conservação da biodiversidade, a melhoria da qualidade do ar, a redução das ilhas de calor e a drenagem urbana. Trata-se de substituir decisões baseadas apenas na observação ocasional por uma gestão apoiada em dados.
A experiência da Riviera de São Lourenço, bairro planejado de Bertioga, no Litoral Norte paulista, implantado pela Sobloco Construtora, demonstra na prática o valor dessa abordagem. Seu
inventário arbóreo já cadastrou 7.651 árvores e concluiu o diagnóstico de todas as calçadas das avenidas, nas quais foram identificadas 1.090 unidades. O levantamento continua nos
canteiros centrais, calçadas dos módulos, jardim da praia e praças.
O trabalho combina identificação das espécies, medições de altura, diâmetro do tronco e copa, avaliação das condições de saúde e análise das distâncias em relação a guias, postes e
esquinas. Tudo isso é associado a um mapeamento georreferenciado, com registro fotográfico e armazenamento das informações em sistema específico de gestão da arborização. Esse
nível de detalhamento faz diferença. Ao conhecer a árvore individualmente e todo o conjunto da arborização, os responsáveis pela gestão conseguem planejar intervenções com maior precisão e
antecipar problemas, em vez de simplesmente reagir a eles.
Os dados obtidos também revelam características importantes da vegetação. Dentre as 1.090 árvores catalogadas nas calçadas das avenidas, 61% são espécies exóticas e 39% nativas. O levantamento identificou, dentre as espécies mais frequentes, Chapéu de Sol, Figueira, Ipê Amarelo, Palheteira, Quaresmeira, Ipê Rosa, Coqueiro, Aroeira Salsa, Grumixama e Ingá Cipó. Nos
canteiros centrais, predominam coqueiros, acompanhados, em menor quantidade, por jerivás.
Essas informações permitem ir além da manutenção. Ajudam a planejar o futuro da arborização. Onde é necessário ampliar a cobertura? Quais espécies são mais adequadas para determinado
espaço? Onde uma árvore pode entrar em conflito com a infraestrutura? Quais espécimes demandam acompanhamento mais próximo? Onde a vegetação pode ser reforçada para melhorar o conforto térmico e a qualidade ambiental? É nesse ponto que o inventário passa a ser uma ferramenta de gestão urbana.
Há, ainda, uma dimensão climática relevante: árvores contribuem para amenizar temperaturas, oferecer sombra, melhorar a qualidade do ar e participar do ciclo hidrológico. Sua presença
adequada pode colaborar para reduzir os efeitos das ilhas de calor e favorecer a infiltração e a retenção de água da chuva. Em cidades cada vez mais pressionadas por eventos climáticos extremos, planejar a arborização significa também investir em resiliência urbana.
A Riviera adota a chamada regra 3-30-300, princípio que propõe três árvores por propriedade, 30% de cobertura arbórea no bairro e acesso a uma área verde a até 300 metros de distância. O
conceito reforça uma visão na qual o contato com a natureza não é privilégio de determinados espaços, mas componente do planejamento urbano e da qualidade da vida.
A lição que esse exemplo oferece é simples, mas emblemática: não se administra adequadamente aquilo que não se conhece. O inventário transforma árvores dispersas pela paisagem
urbana em um patrimônio ambiental identificado, mensurado e passível de gestão.
Por isso, condomínios e municípios deveriam considerar sempre o inventário arbóreo como parte de seu planejamento urbano e uma prática de governança ambiental. A arborização é
uma infraestrutura verde importante, requerendo diagnóstico, manutenção, investimento e visão de longo prazo. A experiência da Riviera de São Lourenço é uma referência e mostra que essa
mudança de perspectiva é necessária e, o que é melhor, possível.
Beatriz de Almeida, diretora-adjunta de Marketing da construtora Sobloco
