Administrar um condomínio não deveria significar apenas manter as contas em dia, controlar despesas e apresentar balancetes aos moradores. Embora o equilíbrio financeiro seja indispensável para preservar o patrimônio e garantir o funcionamento do empreendimento, uma boa gestão precisa olhar, também, para as pessoas e para os impactos ambientais das decisões tomadas no dia a dia.
É nesse contexto que o conceito de Triple Bottom Line (TBL) pode ganhar espaço na administração condominial. A proposta parte de um princípio simples: decisões de gestão devem considerar, de forma equilibrada, três dimensões — pessoas, sustentabilidade ambiental e prosperidade financeira.
Na prática, isso significa ampliar o olhar sobre o que representa uma boa administração. No pilar das pessoas, por exemplo, entram questões como convivência, segurança, qualidade de vida, acessibilidade, comunicação com os moradores, treinamento dos funcionários e ações de integração. Mais do que realizar iniciativas pontuais, é possível acompanhar indicadores como satisfação dos moradores, número de reclamações, acidentes e participação nas assembleias.
O mesmo raciocínio vale para a sustentabilidade: reduzir o consumo de água e energia, ampliar a coleta seletiva, adotar iluminação LED, avaliar a utilização de energia solar, estimular a compostagem e promover o descarte correto de resíduos são medidas que podem reduzir impactos ambientais e, em alguns casos, também gerar economia para o condomínio.
Já a dimensão da prosperidade está diretamente relacionada à saúde financeira e à preservação do patrimônio. Planejamento orçamentário, manutenção preventiva, análise de contratos, redução de desperdícios, controle da inadimplência e formação adequada do fundo de reserva são alguns dos instrumentos que contribuem para uma administração mais eficiente.
O ponto central, porém, é evitar que o Triple Bottom Line se transforme apenas em uma lista de boas iniciativas ambientais ou sociais. O conceito precisa fazer parte da gestão e, principalmente, da tomada de decisões. Uma simples troca da iluminação de uma garagem é um bom exemplo. Em vez de considerar somente o preço da compra e da instalação, a administração pode avaliar simultaneamente o investimento e o prazo de retorno, a economia de energia e os efeitos da nova iluminação sobre a segurança dos moradores.
Essa mudança de perspectiva também pode tornar a gestão mais transparente. Para começar, o condomínio pode fazer um diagnóstico dos últimos 12 meses, levantando informações sobre consumo de água e energia, despesas, inadimplência, manutenções, reclamações, acidentes, participação em assembleias e principais demandas dos moradores. A partir desse levantamento, podem ser definidas metas para cada um dos três pilares, acompanhadas de responsáveis, prazos e indicadores.
Outro avanço seria transformar esses dados em uma espécie de painel de gestão. Indicadores de satisfação dos moradores, reclamações resolvidas e participação nas assembleias poderiam representar o pilar das pessoas. Consumo de água e energia por unidade e volume de resíduos reciclados ajudariam a acompanhar os resultados ambientais. Já a inadimplência, custo operacional por unidade e relação entre o orçamento previsto e o realizado permitiriam monitorar a dimensão financeira.
O mais importante é que esses números deixem de ser apenas informação e passem a orientar decisões. Um condomínio pode, por exemplo, estabelecer metas anuais de redução do consumo de água e energia, ampliação da coleta seletiva, aumento da satisfação dos moradores e diminuição de gastos emergenciais por meio de um plano preventivo de manutenção.
Um condomínio poderia estabelecer para 2027 metas como: reduzir 8% do consumo de água, reduzir 10% do consumo de energia das áreas comuns, aumentar a coleta seletiva, alcançar 85% de satisfação dos moradores, reduzir chamados reincidentes, manter inadimplência abaixo de determinada faixa e criar um plano preventivo de manutenção para diminuir gastos emergenciais.
No fim das contas, a grande transformação está na forma de prestar contas. Em vez de mostrar apenas quanto o condomínio gastou, a administração passa a demonstrar o que aquele recurso produziu: quanto economizou, que problema resolveu, que melhoria proporcionou e qual impacto gerou para moradores e patrimônio. Em uma época em que os moradores estão cada vez mais atentos à transparência, à sustentabilidade e à qualidade dos serviços que recebem, administrar bem pode significar muito mais do que fechar o ano no azul.
Por Selma Koshoji é contabilista, administradora de empresas, fundadora do Grupo Heisei, idealizadora do Heisei Conecta Síndicos e presidente da ACIAS (Associação Comercial, Industrial e Agropecuária de Sumaré)
