Durante muito tempo, as áreas comuns dos condomínios foram pensadas de forma estritamente funcional. O lobby recebia, os corredores conectavam, os espaços de convivência cumpriam sua rotina. Hoje, esse entendimento mudou. Essas áreas passaram a ocupar um lugar importante na percepção de valor de um empreendimento, tanto para quem mora quanto para quem visita.
Eu acredito que a arte tem papel central nessa transformação.
Quando inserida com intenção no ambiente condominial, ela amplia a experiência estética, constrói identidade e fortalece a relação entre arquitetura, bem-estar e pertencimento. Um lobby com curadoria deixa de ser só um ponto de chegada e passa a comunicar um estilo de vida. Antes mesmo da conversa, ele já revela o tom do edifício.
Esse impacto vai além da imagem. Empreendimentos que investem em projeto, ambientação, materialidade e arte tendem a elevar a percepção de sofisticação, exclusividade e permanência. O comprador contemporâneo observa o conjunto. Ele busca coerência, experiência e espaços capazes de despertar desejo.
Gosto de pensar nessas áreas como galerias do cotidiano. Espaços onde a arte pode surgir em fotografias, esculturas, tapeçarias, painéis ou obras criadas para aquele contexto específico. O mais importante é que essa presença tenha sentido. A arte, nesse caso, entra como linguagem. Ela precisa dialogar com a arquitetura, com a luz, com a escala e com a atmosfera que se pretende criar.
A escolha das obras deve partir de um conceito claro. Em alguns projetos, faz sentido destacar artistas brasileiros contemporâneos. Em outros, uma linguagem mais abstrata ou matérica oferece o equilíbrio certo. Há situações em que a história do bairro, a paisagem urbana ou a memória local ajudam a orientar essa curadoria com muita elegância.
Minha vivência em Rotterdam reforçou esse olhar. Lá, percebi como arte e arquitetura convivem de maneira natural nos espaços coletivos. Essa experiência ampliou minha percepção sobre o valor cultural dos ambientes compartilhados e sobre a capacidade da arquitetura de construir narrativas silenciosas, mas muito presentes.
Nos condomínios, isso vale para muito além do lobby. Halls, lounges, salões e áreas de circulação podem receber intervenções que transformam a rotina e qualificam o percurso. No fim, valorizar um imóvel passa por várias camadas. A metragem importa. A localização tem peso. Mas o que realmente diferencia um projeto é sua capacidade de criar atmosfera, memória e identidade. E nisso, a arte tem uma força rara.
*Por Pedro Coimbra, arquiteto especialista em curadoria de arte, com projetos que incluem galerias, museus e restaurantes em seu portfólio
