discussão sobre treinamentos em condomínios normalmente aparece quando algo dá errado, seja uma falha de portaria, um incidente de segurança ou um conflito que poderia ter sido evitado. O tema, entretanto, deveria fazer parte da rotina e não surgir apenas diante do problema. Mesmo sem exigência legal, a realização de capacitações periódicas já deveria ser tratada como prática central para qualquer gestão que trata segurança e organização com seriedade.
Há quem acredite que os treinos são apenas a repetição de informações óbvias. Uma percepção equivocada, pois, diante das particularidades de cada condomínio, a etapa se torna decisiva para alinhar expectativas, corrigir condutas e manter os processos claros.
Em ambientes de rotina intensa e repetitiva, como a portaria, o conhecimento tende a se perder com o tempo. Um exercício anual orienta, mas não dá conta de áreas com alta rotatividade, como a portaria terceirizada. Cada novo funcionário chega com hábitos próprios, interpretações diferentes e uma noção particular do que é “correto”. Quando não há um responsável por integrar e acompanhar esses profissionais, a operação perde a consistência.
Outro aspecto pouco discutido é a influência dos moradores na rotina da portaria. Sem dúvidas, a convivência diária aproxima e contribui para o bem-estar coletivo, mas, sem regras bem estabelecidas, essa proximidade também cria pressões indevidas e flexibilizações perigosas. A boa intenção de facilitar a entrada de um visitante pode virar até mesmo um acesso indevido.
E os dados mostram como isso impacta na segurança. Um relatório da SESVESP indica que 70% das invasões em empreendimentos residenciais decorrem de falhas humanas, não tecnológicas. O retrato fica ainda mais claro ao observar o cenário amplamente. Nos primeiros seis meses de 2025, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo registrou 1.429 casos de roubos em condomínios. A vulnerabilidade costuma surgir da execução, não da ausência de equipamentos.
É por isso que a implementação de qualquer tecnologia depende de processos bem definidos. Não importa o quão avançado seja o sistema adotado, ele não compensa uma operação mal estruturada. A tecnologia só entrega bons resultados quando encontra um ambiente organizado. Quando a base é frágil, o erro aparece mais rápido. Quando é consistente, até mesmo ferramentas simples funcionam bem.
O conteúdo dos treinamentos também precisa ser mais amplo. Síndicos devem revisitar responsabilidades legais, práticas de convivência, gestão de conflitos e rotinas de segurança. Funcionários precisam entender claramente como agir, qual postura adotar e como utilizar os sistemas disponíveis. Moradores, embora não exijam treinos formais, dependem de comunicação objetiva e constante sobre regras básicas. No campo da tecnologia, a premissa é direta: quanto menos ela exigir instruções, melhor.
Capacitações bem aplicadas evitam problemas conhecidos: autorização de acesso feita de
maneira incorreta, falhas de comunicação entre portaria e síndico, regras interpretadas de
formas diferentes, conflitos que surgem por falta de orientação. Treinar é antecipar riscos e
reduzir retrabalho, e aqui a tecnologia entra como suporte.
Plataformas que organizam manuais, registram participações e oferecem trilhas de aprendizagem tornam o processo mais previsível e mais fácil de acompanhar. Em operações mais complexas, treinamentos presenciais trazem a profundidade necessária. O formato pode variar, mas a continuidade, não.
Para organizar ou aprimorar esses processos, o ponto de partida está no regimento interno, convenção e atas. Com isso, é possível estruturar manuais, definir regras claras, estabelecer periodicidade de treinamento e escolher um responsável pela integração de novos funcionários. Quando essa base não está clara, envolver os moradores é o caminho natural, pois segurança é interesse coletivo. Plataformas e produtos digitais ajudam muito nesse trabalho, mas não substituem a necessidade de processo. Funcionam quando existe direção.
No fim, a operação condominial não se destaca pela novidade da ferramenta, mas pela consistência da rotina. O porteiro bem orientado evita incidentes mais do que qualquer equipamento moderno, enquanto o síndico preparado resolve conflitos melhor do que qualquer aplicativo. O software não garante sozinho a segurança se o procedimento não for seguido. O treinamento é discreto, eficiente e essencial. Talvez por isso seja tantas vezes negligenciado e seu valor apareça justamente quando falta.
Uma gestão responsável não age apenas quando o problema acontece. Ela se antecipa a ele. E é essa diferença que, no dia a dia, separa condomínios que declaram ser seguros daqueles que realmente entregam segurança.
*Por Anderson Entrielli, head de operações para moradia na Superlógica
