O início do ano foi marcado por temperaturas acima da média histórica em diversas regiões do país e por picos recentes de consumo de energia elétrica, impulsionados pelo uso intensivo de sistemas de climatização. Ao mesmo tempo, boletins recentes da Fiocruz indicam aumento nos casos de síndrome respiratória aguda grave, enquanto dados do Instituto Nacional de Meteorologia apontam episódios recorrentes de baixa umidade em diferentes cidades.
Nesse contexto, a qualidade do ar em ambientes internos passou a ser tratada como uma questão de saúde pública, diante do avanço de doenças respiratórias e da permanência prolongada de pessoas em espaços fechados. Estimativas da Organização Mundial da Saúde indicam que a poluição do ar está associada a cerca de 7 milhões de mortes por ano no mundo, e, no Brasil, dados do Ministério da Saúde mostram que doenças do aparelho respiratório seguem entre as principais causas de internação, especialmente em períodos de calor intenso e baixa umidade.
Impacto em escolas, empresas e hospitais – Patrick Galletti, engenheiro mecatrônico, especialista em climatização e CEO do Grupo RETEC, afirma que a climatização deixou de ser apenas um recurso de conforto e passou a ter papel direto na prevenção de doenças. “Ambientes fechados, sem renovação de ar e controle de umidade, favorecem a concentração de vírus, bactérias e poluentes. Quando a climatização é bem projetada, ela atua como um fator de proteção à saúde”, diz.
O tema ganhou força em setores como educação, corporativo e saúde, onde a qualidade do ar impacta diretamente o desempenho e o bem-estar. Em escolas, por exemplo, estudos indicam que ambientes com ventilação inadequada favorecem a disseminação de doenças respiratórias e prejudicam a capacidade de concentração dos alunos. “Salas com alta ocupação e pouca circulação de ar criam um ambiente propício para afastamentos frequentes e queda no rendimento”, afirma o CEO.
Nos escritórios, o impacto também é mensurável, pesquisas internacionais indicam que a produtividade pode cair entre 10% e 15% em condições térmicas desfavoráveis. “A qualidade do ar influencia diretamente a disposição. Não é apenas uma questão de conforto, mas de desempenho e saúde ocupacional”, afirma.
Na área da saúde, a exigência é ainda maior. Normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária determinam padrões rigorosos de controle do ar em hospitais para evitar infecções e agravamento de quadros clínicos. Segundo o especialista, sistemas sem manutenção adequada podem inverter o papel da climatização e se tornar fonte de contaminação. “Quando não há controle, o próprio sistema pode distribuir partículas nocivas pelo ambiente”, diz.
Umidade do ar e riscos invisíveis – Outro ponto crítico está na umidade do ar. Em locais com uso contínuo de ar–condicionado, os níveis podem cair abaixo do recomendado, o que favorece irritações, alergias e maior vulnerabilidade a infecções respiratórias. “Não basta ajustar a temperatura. O equilíbrio entre umidade, filtragem e renovação do ar é o que garante um ambiente saudável”, afirma.
Além dos impactos na saúde, a climatização também passou a ser observada sob a ótica da eficiência. Em edifícios comerciais e públicos, esses sistemas representam uma parcela relevante do consumo de energia, o que tem levado empresas a investir em tecnologias mais inteligentes . Sensores, automação e controle por zonas permitem adaptar o funcionamento dos equipamentos à ocupação real dos espaços.
Para Galletti, o avanço tecnológico mudou o papel da climatização dentro das organizações. “Hoje, é possível monitorar o ambiente em tempo real e fazer ajustes automáticos. Isso garante conforto, reduz desperdícios e melhora a qualidade do ar sem depender de intervenção constante”, diz.
“A climatização precisa ser tratada como infraestrutura essencial. Quando bem planejada, ela reduz afastamentos, melhora o desempenho e contribui para a saúde coletiva. Ignorar isso significa conviver com problemas que poderiam ser evitados”, conclui.
O aumento das temperaturas e a maior permanência em ambientes fechados reforçam a urgência do tema. A combinação entre calor, baixa umidade e ventilação insuficiente amplia riscos que antes eram pontuais e hoje se tornam recorrentes.
