O avanço das ferramentas de inteligência artificial trouxe ganhos de eficiência a diversos setores, mas também abriu espaço para modalidades mais sofisticadas de fraude. Em condomínios residenciais, cresce o uso de clonagem de voz e manipulação de imagem para simular áudios de proprietários enviados por WhatsApp ou realizar chamadas falsas com o objetivo de autorizar a entrada de criminosos disfarçados de prestadores de serviço.
No Brasil, levantamento divulgado pelo TecMundo aponta que ataques envolvendo tecnologia deepfake cresceram 126% no último ano, mesmo diante da queda em outros tipos de crimes digitais. O dado indica que grupos criminosos estão migrando para técnicas mais elaboradas, explorando brechas em processos frágeis de validação e confirmações informais.
Diante desse cenário, os sistemas de portaria remota assumem papel estratégico na contenção dessas tentativas de fraude. Diferentemente dos modelos convencionais nos quais a autorização pode ocorrer com base em mensagens isoladas ou ligações sem registro formal, a portaria remota estruturada opera com protocolos rígidos de checagem e rastreabilidade.
Nas configurações mais avançadas, a entrada de visitantes ou prestadores somente é permitida mediante cadastro prévio e registro oficial na plataforma do condomínio. A confirmação não pode ocorrer exclusivamente por áudio ou mensagem avulsa. O processo exige múltiplos critérios de verificação, como conferência de dados cadastrais, consulta ao histórico de liberações, registro automatizado da solicitação e, em alguns casos, integração com reconhecimento facial ou autenticação em dois fatores.
Na prática, isso significa que um áudio gerado por inteligência artificial ou uma videochamada manipulada deixam de ser suficientes para autorizar o acesso. A decisão deixa de depender da familiaridade com a voz do morador e passa a seguir um fluxo formal, documentado e passível de auditoria.
Outro aspecto determinante é a centralização da comunicação. Quando permissões circulam por aplicativos de mensagem paralelos ao sistema oficial do condomínio, cria-se uma vulnerabilidade operacional. Já na portaria remota integrada, todas as solicitações transitam obrigatoriamente pela plataforma institucional, onde permanecem registradas com data, horário, responsável e critérios utilizados na análise.
Para Marcio Verderio Tahan, CEO da VTCall, empresa especializada em soluções de comunicação corporativa com inteligência artificial e automação, a principal fragilidade explorada pelos fraudadores está na informalidade dos procedimentos. “A clonagem de voz se apoia na confiança humana. Quando não há protocolo estruturado nem trilha auditável, a decisão pode ser influenciada por um áudio convincente. A tecnologia precisa reduzir essa margem de interpretação”, afirma.
Segundo Marcio, a resposta a esse novo contexto passa pela implementação de uma camada organizada de comunicação integrada à portaria remota. “Não basta controlar o acesso físico. É fundamental assegurar que chamadas, mensagens e autorizações circulem dentro de um ambiente oficial, com múltiplos níveis de validação e registro completo das interações. Comunicação estruturada também é proteção”, ressalta.
Soluções como atendimento omnichannel e automação inteligente passam, então, a atuar como complemento estratégico aos sistemas de controle de acesso. Em muitas operações de portaria remota, a validação de acessos também pode ser reforçada por plataformas de comunicação corporativa integradas, capazes de registrar chamadas, manter histórico auditável das interações e automatizar confirmações entre moradores e centrais de atendimento. Ao se integrarem às plataformas já utilizadas pelo condomínio, esses recursos transformam canais como o WhatsApp e outros aplicativos em fluxos monitorados, com registro automático e trilhas auditáveis, reduzindo significativamente o risco de fraudes baseadas em mensagens avulsas, autorizações informais ou conteúdos manipulados digitalmente.
Com diferentes níveis de integração tecnológica e múltiplas camadas de validação disponíveis, os condomínios podem avançar de forma estratégica, adotando decisões baseadas em dados, registros auditáveis e protocolos estruturados para proteger moradores, patrimônio e reputação contra ataques com deepfakes cada vez mais sofisticados, tanto os que já ocorrem hoje quanto os que ainda estão por vir.
