A certificação ESG passou a ocupar um lugar central no mercado imobiliário corporativo. O que antes era tratado como diferencial competitivo ou estratégia de marketing começa a se consolidar como exigência concreta nas negociações de locação de lajes em prédios corporativos, influenciando decisões de empresas locatárias, fundos imobiliários e investidores.
Nesse contexto, as certificações ESG aplicadas ao aluguel de lajes em prédios corporativos seguem a mesma lógica observada em outros segmentos do mercado imobiliário. Empresas locatárias, especialmente aquelas submetidas a reporte obrigatórios de ESG, vinculadas a cadeias globais de valor ou que assumiram compromissos voluntários ambientais e/ou climáticos, vêm priorizando edifícios capazes de fornecer dados confiáveis, rastreáveis e auditáveis sobre sua operação cotidiana.
Entre as certificações mais difundidas no mercado brasileiro está a LEED (Leadership in Energy and Environmental Design), desenvolvida pelo U.S. Green Building Council, que avalia aspectos como eficiência energética, uso racional da água, qualidade ambiental interna e redução da pegada de carbono. Outra certificação relevante é a AQUA-HQE (Alta Qualidade Ambiental), adaptada ao contexto nacional pela Fundação Vanzolini a partir de um referencial internacional, que incorpora critérios amplos de desempenho ambiental e gestão em todas as fases do ciclo de vida do edifício. Também merece destaque a EDGE (Excellence in Design for Greater Efficiencies), criada pelo International Finance Corporation, que tem foco em projetos com maior eficiência no uso de energia, água e materiais.
Uma vez certificadas, essas características passam a representar um diferencial para as empresas locatárias, que podem utilizar dados técnicos verificáveis do edifício para reportar, em seus próprios relatórios de sustentabilidade, ganhos na redução de emissões de carbono e comprovar a adoção de critérios ambientais e de diligência responsável na seleção de seus espaços corporativos.
Sob a perspectiva do construtor e do incorporador, a adoção de padrões construtivos alinhados a critérios de sustentabilidade desde a concepção do projeto tende a facilitar a obtenção destas certificações, contribuindo para a valorização e a competitividade do empreendimento como um todo.
Apesar da relevância das certificações, o locador do imóvel, via de regra, não acompanha diretamente a implementação cotidiana das práticas ambientais e operacionais do edifício. É nesse cenário que o papel dos gestores imobiliários se torna central. São eles que asseguram que os requisitos de certificação, as diretrizes contratuais e as metas de desempenho ambiental sejam efetivamente incorporadas à operação diária do empreendimento, condição essencial para que o ativo esteja apto a atender às exigências de locatários e investidores.
Nessa mesma lógica, o síndico deixa de exercer apenas uma função administrativa e passa a assumir papel cada vez mais relevante na governança condominial e na verificação das informações de sustentabilidade do edifício. Sua atuação é fundamental para a validação dos dados operacionais das áreas comuns, como consumo de energia e água e gestão de resíduos, para a conferência da origem das informações, para o suporte a auditorias independentes e para a formalização de declarações de conformidade no âmbito da operação predial.
Para que isso seja possível, os relatórios de sustentabilidade associados à locação de lajes corporativas precisam ser baseados em dados rastreáveis, medições reais e documentação verificável, permitindo conferência tanto pelo síndico quanto por auditores externos eventualmente contratados.
O desafio que se impõe ao mercado imobiliário, portanto, reside no fato de que, à medida que locatários, investidores e financiadores passam a demandar essas informações, a ausência de estruturas mínimas de governança, inclusive no âmbito condominial, tende a impactar diretamente a atratividade, a liquidez e a própria competitividade dos ativos corporativos.
Em síntese, a locação de lajes corporativas deixa de ser uma decisão puramente econômica e passa a refletir o grau de maturidade das práticas ESG do edifício, consolidando a sustentabilidade como elemento estrutural da gestão condominial e da valorização dos empreendimentos.
*Por Solange Cunha, sócia-coordenadora da área de Direito Ambiental e Mudanças Climáticas do Silveiro Advogados, é Mestre em Direito e Políticas Públicas pela Unirio, especialista em Direito Ambiental pela PUC-Rio e associada da União Brasileira da Advocacia Ambiental (UBAA), e Laura de Paula, advogada da área de Direito Ambiental e Mudanças Climáticas do Silveiro Advogados, pós-graduada em Gestão Estratégica em ESG pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e associada da UBAA
